No dia 04/07/97, escutava a antiga Musical FM de São Paulo quando uma voz invadiu a minha alma. Não consegui perceber quem era; não conhecia aquele timbre; não conhecia aquela música. Liguei para o meu amigo José Luiz Olimpio para perguntar se ele conhecia e também não tinha percebido o nome da cantora.

Ficamos atentos a programação da rádio e mais tarde entendemos que se tratava de Virgínia Rodrigues, que naquela noite faria o show de lançamento de seu primeiro CD no Tom Brasil. É claro que fomos ao show.

Eu me apaixonei pela voz e pela história da Virgínia Rodrigues, e aos poucos fomos ficando amigos. Estive muitas vezes na favela para visitá-la e por muitas vezes viajei acompanhando Virgínia no Brasil, Estados Unidos e Europa, só pela nossa amizade. 

Até este momento o meu contato com o mundo da música e das artes era através do dramaturgo  Alcides Nogueira (Tide). A partir da amizade com Virginia Rodrigues comecei a envolver-me profundamente com o mundo da música; conheci Caetano Veloso, Sergio Mamberti, Zezé Motta, Sergio Viotti, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Maria Bethânia, Luiz Brasil, Jussara Silveira... A curiosidade me levou a outras pessoas: Dona Lia de Itamaracá, Cida Moreira, Consuelo de Paula ...

No final de 2002, surge o CD independente de “Dona Edith do Prato e Vozes da Purificação”. Vou até Santo Amaro da Purificação para conhecer essa jóia. Somos recebidos na casa dessa “rainha” como os "parentes" de São Paulo, sem nunca antes termos estado juntos. Assim nasce uma outra grande amizade. Proponho-me divulgar o CD por amor a arte e assim outras pessoas entram na minha vida: Bob Velloso, J. Velloso, Canô Velloso, Eunice Oliveira (Nicinha), Mariene de Castro, Padre Alfredo Dorea.... Comecei, então, a tentar viabilizar um show da Dona Edith do Prato no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ainda não era produtor e nem sabia muito bem como fazer isso. 

No início de 2004, consegui marcar uma apresentação no Paço Imperial, no Rio de Janeiro. O show foi realizado na sala onde a Princesa Isabel assinou a “Lei Áurea”. Foi emocionante ver aquela gente de origem negra cantando samba de roda nessa histórica sala. Meses depois, estávamos na sala do Itaú Cultural para quatro apresentações lotadas. Nessa ocasião, o show  foi registrado em formato de DVD.

Como contei, não era produtor, apenas estava fazendo aquilo com muita paixão. Tinha uma equipe de colaboradores improvisada: meu amigo José Luiz Olimpio, meu irmão Anselmo Frugoli e nossa amiga Adriana Pereira.
Durante todos aqueles dias, nosso amigo J. Velloso - que era o produtor do CD - falou que devíamos abrir uma produtora pois ele nunca tinha sido tão bem tratado. Insistiu muitas vezes, mas não havia nenhuma intenção de minha parte. Acontece que, a medida que os shows iam se passando, a emoção aumentava e a beleza daquele evento tomou todos nós que trabalhávamos para aquilo acontecer. Ao final do último show no dia 17/04/04, que foi ovacionado pela platéia, uma portuguesa gritava: "Foi uma noite Singular, foi uma noite Singular, foi uma noite Singular!!!"

Naquela noite, batizada por uma portuguesa anônima e com muita festa e samba de roda, nasceu então a Singular Produções, que depois recebeu em sua logomarca um prato estilizado, eterna homenagem à Dona Edith do Prato.
Depois de Dona Edith do Prato, vieram e continuam  chegando muitos outros: Gal Costa, Francis Hime, Paulo Moura, Yamandú Costa, Sergio Santos, Olívia Hime, Miúcha, Joyce, Zé Renato, Quarteto Maogani, Trio Manari, Mônica Salmaso, Renato Braz, Arícia Mess, Rubi, Aloísio Menezes, Leila Pinheiro, Buika, Fafá de Belém, Nana Vsconcelos,  Luciano Salvador Bahia, Lura, Cesária Evora,  Marcia Castro, Zélia Duncan, Wagner Tiso, Dionne Warwick, Tiganá,  Zé Pedro, Maria Bonomi, Abrahão Farc, Vanguart, entre outros que ainda chegarão! Música  e arte de alta qualidade.

Em 2006 conheci Mercedes Sosa, em pouco tempo viramos amigos, depois viramos mãe e filho...foram três anos de relação intensa...viajamos o mundo...falávamos quase diariamente... Convivi com um mito... algo além da musica.... um ser que transcendia a arte... uma mulher influenciou a historia da América Latina e criou um continente imaginário que ela chamava de  "Continente Latino Americano" mas, sobretudo, alguém que criou, defendeu e divulgou a "Identidade e orgulho do povo Latino Americano"  Foram três anos convivendo com um mito! Aprendi  muito com ela... muito sobre o "deixar a arte penetrar dentro de nossa alma"... muito sobre a vida e sobre o desprendimento. Descobri com sua partida, que sentirei saudades a vida toda.

Agora, depois de tantas experiências e tantas pessoas que chegaram e que passaram temos muitas noites singulares!


Ricardo Frugoli

 

 

Virginia Rodrigues

 

Dona Edith - DVD

 

Dona Edith e as Vozes da Purificação - Show

  adeus Dona Edith